opinião

Rodrigo Martini

Rodrigo Martini

Jornalista

Coluna aborda os bastidores da política regional e discussão de temas polêmicos

Um acordo milionário!

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Vale do Taquari

A BRF teve que literalmente pagar para manter ativo o frigorífico em Lajeado. É esse o resumo das negociações entre o Ministério Público (MP) e a direção da multinacional, que perdurou por alguns poucos dias. No fim das contas, o montante de R$ 1,2 milhão, que será direcionado aos Hospitais de Lajeado e Estrela para o necessário combate à Covid-19, foi o principal balizador do acordo firmado entre as partes na madrugada dessa sexta-feira. Agora é correr contra o prejuízo.

O acordo tem outros detalhes, claro, que denotam a preocupação dos promotores. A contratação de uma Assistente Social e uma Enfermeira para monitorar milhares de funcionários e familiares que vivem em quatro bairros carentes de Lajeado é outro balizador, assim como os testes em 100% dos colaboradores – ação que a empresa vinha realizando. Também restou pré-definida uma possível compensação aos produtores integrados, em caso de prejuízo causado pela redução forçada dos abates.

A principal empresa da mais populosa cidade do Vale do Taquari também foi obrigada a diminuir a carga e o volume de serviços no frigorífico. A principal geradora de empregos da cidade, e responsável pelo maior índice de retorno de impostos aos cofres do município – aquele dinheiro gasto em saúde, educação, segurança e infraestrutura, e que não nasce em árvore –, terá que funcionar com apenas 50% do seu efetivo até o dia 25 de maio.

Tratada como a vilã dessa tragédia mundial pelos “romancistas” locais, tal como a Minuano, a multinacional de produção animal já realiza uma série de ações semelhantes nos bastidores. Sem muito alarde e longe dos holofotes. Aqui em Lajeado, por exemplo, a BRF custeou centenas de testes rápidos para a Covid-19, antes mesmo da ação judicial proposta pelo MP. Da mesma forma, já aplicava critérios exigidos pela OMS, e afastara das unidades o chamado “grupo de risco”.

Já em âmbito nacional, a empresa global anunciou no início de abril a doação de R$ 50 milhões em insumos médicos, equipamentos e alimentos, e no investimento em estudos científicos para combater o novo coronavírus. Os recursos serviram para a compra de respiradores, máscaras e luvas, por exemplo. Naquele momento, a BRF também já anunciara mais de 20 mil testes para detecção do novo coronavírus em todo o país.

Para os “romancistas”, porém, tudo isso ainda é pouco diante dos altos lucros da empresa. Para tantos, os empresários e CEO´s precisam sangrar até a última gota de sangue. Para os “romancistas”, o lucro é crime e os vilões são sempre os outros. Para os “romancistas”, é mais fácil achar que a culpa é do outro. Mas, para a sorte de milhares de trabalhadores, nem todos os envolvidos são “romancistas”. Caso contrário, o abate econômico e social seria ainda mais doloroso para o Vale.

Discriminação ou preocupação?

Líderes locais, empresários e boa parte da sociedade em geral atestam que funcionários da BRF e da Minuano não ficarão em casa durante o período de restrição das atividades nos dois frigoríficos. Eu não tenho bola de cristal. Logo, acho difícil compactuar com essa certeza. E mais. Acho curioso que este mesmo debate não tenha sido alimentado após o fechamento do comércio. Ou da universidade. Por que será?

Percebo dois motivos. O primeiro é a discriminação velada. Algo do tipo: “os trabalhadores da BRF são de uma classe social mais baixa e, sendo assim, tendem a desrespeitar regras”. Infelizmente, é assim que muitos pensam. Outros, mais sensatos, reforçam que o risco está na falta de saneamento e assistência nessas comunidades, além do alto índice demográfico. Ou seja, a linha anda delicadamente tênue entre o preconceito e a preocupação.

A grande verdade é que a maioria das pessoas não está disposta a cumprir o isolamento social. E de fato não cumpre. O que é preocupante, claro. Mas isso ocorre em todos os bairros ou classes sociais. Não podemos ser ignorantes e pensar que só a classe mais pobre tende a descumprir as recentes ordens sanitárias. Ora, sejamos justos. Ou são essas famílias que continuam passeando pelo Serra Gaúcha ou pelo Litoral aos finais de semana?

PSB e os frigoríficos

A juíza Carmen Luíza Rosa Constante Barghouti não aceitou o pedido do PSB de Lajeado para que o partido se tornasse um amicus curiae (amigos da corte) no processo da BRF. O pedido foi ingressado pelos advogados Daniel Fontana e Fábio Gisch, ambos filiados ao PSB e pré-candidatos a prefeito e vice na cidade. Eles propuseram uma audiência on-line entre as partes. No despacho, entre outros argumentos, a juíza enalteceu a proposta, mas afirmou que o pedido “pode levar a ideia de auxilio aos interesses de uma das partes”.