opinião

Ney Arruda Filho

Ney Arruda Filho

Advogado

Coluna com foco na essência humana, tratando de temas desafiadores, aliada à visão jurídica

LIBERDADE E RESPONSABILIDADE

Por

Lajeado

No final da década de 1980, o empresário paulista Ricardo Semler publicou o livro intitulado “Virando a própria mesa”. Na obra, ele criticava de forma veemente a educação brasileira e a gestão das empresas, que muitas vezes partem do princípio que o ser humano é mau e, com rédeas soltas, se joga nas cordas. Para ele, a bondade seria o traço predominante da natureza humana, o que o levou a implantar uma gestão menos controladora, com transparência e flexibilidade de horário de trabalho, dentre outras inovações para a época. Mais recentemente, o francês Yves Morieux passou a difundir o conceito de que as organizações devem desburocratizar o negócio, serem transparentes e usarem a cooperação como forma de obter resultados práticos.

Sempre tive dúvidas sobre a melhor maneira de obter resultados em equipe: se é melhor sistematizar, criar rotinas e controles, ou se flexibilizar e apostar no comprometimento e na responsabilidade poderia ser a melhor escolha. E as dúvidas permanecem. Quanto menos controles e maiores responsabilidades, dizem alguns, mais engajada e produtiva será a equipe. Quanto mais controles e rotinas, dizem outros, mais otimizado será o resultado, pois não se administra o que não se mede. Por opção e por princípios, acabei por escolhendo uma gestão de maiores responsabilidades e menos controles diretos, com confiança nas pessoas, conscientes das consequências dos seus atos. E para que a coisa dê certo, é importante ficar atento aos sinais. Ambientes que valorizam e oportunizam a cooperação são essenciais, pois a vantagem competitiva de hoje está em saber gerenciar as novas complexidades sociais, maximizando o potencial da equipe, seja de alunos ou de colaboradores. Mas nem tudo que se aplica ao ambiente privado pode ser aplicado no ambiente público.

O coronavírus trouxe consigo a necessidade da reinvenção. Uma mudança radical no ambiente social. Um novo ambiente de trabalho e de ensino, a necessidade de viver e de trabalhar de forma colaborativa. Isso se quisermos sobreviver e garantir a saúde das pessoas e das empresas. Para perceber como o esforço coletivo pode ajudar a construir um resultado melhor, basta observar como algumas comunidades, em outros países, encararam as determinações das autoridades de saúde. Por aqui, o descaso foi significativo, o que pode ter influenciado diretamente na nossa desonrosa bandeira vermelha. “Ah, mas estamos testando mais”, “estamos informando mais do que outras regiões”, dizem alguns. Tudo no plano das hipóteses. Quando existem especialistas demais, as dúvidas também se tornam demais. Sem as medidas restritivas impostas no Estado e nas cidades do Vale, é impossível dizer se estaríamos numa situação melhor ou pior. Provavelmente pior. Ao mesmo tempo, as pessoas também precisam ter informação, condições e alguma autonomia para poder colaborar.
As minhas dúvidas continuam. Sem regras e rotinas definidas, sem autoridade, apostando só no comprometimento e na responsabilidade individual, a coisa pode descambar pro caos. O maior desafio é encontrar o equilíbrio.