O apagão da mão de obra

opinião

Ney Lazzari

Ney Lazzari

Reitor da Univates

Assuntos e temas do cotidiano

O apagão da mão de obra

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CRON Previne - Lateral vertical - Final vertical

Depois de praticamente meia década de queda e estagnação da economia brasileira, o país precisa voltar a crescer para gerar renda, emprego e voltar a reduzir as crônicas desigualdades sociais que se expandiram novamente nesse período.
A retomada do crescimento econômico depende de muitos fatores e que muitas variáveis estejam equilibradas. Algumas dessas variáveis são determinantes para definir o ritmo e a intensidade do processo de crescimento de uma economia: disponibilidade de recursos humanos, taxa de juros, investimentos, inflação, nível de consumo, balança comercial, câmbio, emprego, poupança e muitas outras.
Historicamente o crescimento econômico no Brasil tem sido impulsionado pela demanda, ou seja, pelo consumo das pessoas, das famílias e do governo. Esse crescimento está muito vinculado à renda e ao crédito disponível e tem como limitação a capacidade produtiva já instalada na economia e o poder de gasto do governo. Qualquer pressão um pouco maior no nível desse tipo de consumo pode se transformar em pressão nos preços, gerar inflação e abortar todo o processo de retomada do crescimento.
De outro modo, em muitas economias, o processo de crescimento é puxado pela oferta de mais ou de novos produtos para consumo. Isso depende dos investimentos em infraestrutura, em novos equipamentos, novas tecnologias, novas processos produtivos que geram maior capacidade de produção voltada para atender não só o mercado interno, mas principalmente o mercado externo. É esse processo que tem ocorrido, por exemplo, no vigoroso crescimento econômico chinês dos últimos 40 anos, capitaneado por um estado forte, centralizador e indutor dos investimentos.
Dadas as mudanças tecnológicas das últimas décadas e o novo padrão exigido pelo mercado, a retomada do crescimento, com aumentos na oferta, passa pelo acesso e adoção desses novos padrões e pela consequente incorporação de uma considerável massa de trabalhadores atualmente desempregados. Esse talvez seja o nosso maior desafio neste momento.
Ao mesmo tempo em que há em torno de 12 milhões de desempregados, há hoje no Brasil em torno de 2 milhões de vagas que não são preenchidas porque não há pessoas qualificadas para ocupá-las, principalmente na área da nova economia.
Há estudos que indicam que esse número de vagas não ocupadas deverá crescer a uma taxa de mais de 10% ao ano nos próximos anos e que, em 2030, poderemos ter quase 6 milhões de vagas não ocupadas por falta de qualificação dos nossos trabalhadores.
Esse é um dos grandes desafios de praticamente todas as economias do mundo, mas é particularmente grave para o Brasil, dado o altíssimo desemprego existente conjugado com os baixos padrões de qualidade e especialização dessa força de trabalho.
Com as facilidades das comunicações e da logística, muitas dessas vagas não preenchidas na economia brasileira acabarão sendo preenchidas em outros locais do mundo onde a mão de obra seja mais qualificada. Mesmo que fundada e radicada no Brasil, uma empresa baseada na tecnologia da informação poderá ser forçada a instalar a sua próxima unidade na Espanha, na Irlanda ou em outro país, uma vez que poderá precisar de centenas ou até de milhares de trabalhadores qualificados e especializados.
Para de fato termos um crescimento econômico de forma sustentada e constante no longo prazo, temos urgência em formar um maior contingente de pessoas nessas áreas da nova economia e, ao mesmo tempo, reciclar e requalificar trabalhadores. Em resumo, precisamos de mais e melhor educação.