9-9-6, 9-3-5 ou 8-3-5? China, Suécia  ou Espanha?

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Ney Lazzari

Ney Lazzari

Reitor da Univates

Assuntos e temas do cotidiano

9-9-6, 9-3-5 ou 8-3-5? China, Suécia ou Espanha?

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Há alguns meses o fundador e CEO da Alibaba, o chinês Jack Ma, gerou grande polêmica em uma de suas entrevistas ao afirmar: “Pessoalmente, penso que ter a possibilidade de trabalhar 9-9-6 é uma grande bênção”, referindo-se ao horário de trabalho das 9h às 21h seis dias por semana. Por essa proposta de Ma, a jornada de trabalho poderia chegar a 72 horas semanais.
De fato, essa afirmação, vinda do CEO de uma das empresas mais valiosas do mundo, assusta. A chinesa Alibaba em janeiro deste ano era considerada a oitava empresa mais valiosa do mundo conforme o valor de mercado, calculado pelo número de ações emitidas multiplicado pelo valor das ações no mercado. A empresa mais valiosa do mundo, naquele momento, era a Amazon, do multibilionário Jeff Bezos, uma referência para a Alibaba. A Amazon valia 800 bilhões de dólares, e na sequência estavam Microsoft valendo 780 bilhões de dólares; Google, US$ 740 bilhões; Apple, US$ 720 bilhões; Berkshire, US$ 480 bilhões; Facebook, US$ 413 bilhões; Tencent, US$ 400 bilhões; e Alibaba, US$ 390 bilhões. Entre as oito empresas mais valiosas, seis são americanas e duas são chinesas (Tencent e Alibaba), sendo sete da área de tecnologia da informação e uma da área de investimentos e seguros (Berkshire), e nenhuma é do setor petrolífero ou do setor bancário. É a nova economia!
Voltando à entrevista, Jack Ma afirma que “muitos trabalhadores não têm a possibilidade de fazer horas extras, pelo que, os que a têm, devem aproveitá-la ao máximo”. O empresário de 54 anos, que é hoje um dos homens mais ricos do mundo, lembrou que ele e seus colegas que fundaram a gigante do comércio eletrônico trabalhavam muitas horas nos primeiros tempos da empresa e que isso foi vital para a consolidação do sucesso da Alibaba.
Também há alguns meses foi noticiado que a Suécia irá introduzir oficialmente a jornada de trabalho de seis horas diárias e de 30 horas semanais: das 9h às 15h, cinco dias por semana (9-3-5). Os trabalhadores do país vão continuar recebendo o mesmo salário mesmo com a redução da carga horária semanal. Por meio de diversos estudos, especialistas descobriram que as pessoas produzem em seis horas o mesmo que produziriam em oito. Um desses estudos mostrava que as faltas por problemas de saúde caíam para menos da metade quando a jornada de trabalho diária era reduzida de oito para seis horas.
Na Espanha, onde estive por alguns meses no primeiro semestre deste ano, a carga horária é de 35 horas semanais. Normalmente nas organizações o trabalho é das 8h às 15h, com um pequeno intervalo de 15 minutos para lanche, de segunda a sexta-feira (8-3-5). Essa carga horária reduzida foi mais uma das medidas introduzidas durante a grave crise imobiliária espanhola de 2010-2014 como uma forma de enfrentar as altas taxas de desemprego. Na crise, a Espanha perdeu mais de 3 milhões de postos de trabalho. Nos últimos três anos já recuperou em torno de 1,5 milhão de postos, mas as mudanças da nova economia ainda mantêm o país com um elevado contingente de desempregados para os padrões europeus, apresentando 14% de desemprego, comparados com os 9,5% da Itália, 8,5% da França, 3,1% da Alemanha ou os 12,5% do Brasil.
Na França, desde 2000, a jornada de trabalho é de 35 horas semanais e, desde 2017, as empresas com mais de 50 funcionários devem informar explicitamente os horários em que os funcionários não devem mandar nem ler e-mails do empregador – geralmente à noite e nos fins de semana. Especialistas afirmam que o “direito de se desconectar” diminui o risco de o funcionário sofrer de estresse, Síndrome de Burnout (esgotamento físico e mental), ter problemas de sono e dificuldades nos relacionamentos.
Nestes novos tempos de busca de propósito na vida, inclusive no trabalho, de novas possibilidades tecnológicas e da chamada economia do conhecimento, o fato de trabalhar em casa, em uma empresa ou em coworking ou de trabalhar 30 ou 72 horas semanais deveria ser de livre escolha das pessoas, e não uma imposição do empregador ou do mercado. Novos arranjos para o trabalho, com horários flexíveis, em locais alternativos, devem ser a tônica do mundo do trabalho. A existência de relógio de ponto é ainda um resquício do antigo modelo de produção fordista, que foi predominante na economia industrial do século passado, baseado mais na força e na agilidade repetitiva do trabalhador do que na sua criatividade ou na sua capacidade de pensar e inovar.
Novos tempos, com novos padrões tecnológicos, estão forçando a sociedade a repensar a forma de trabalhar e as relações entre as pessoas e as organizações não só no trabalho ou no momento de consumo, mas no dia a dia, inclusive na vida privada e familiar.