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O mundo é delas

Aventureiras e determinadas, adolescentes fazem preparação militar e revelam verdadeira força feminina

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O mundo é delas

Quem passeia nas tardes de sábado no Parque dos Dick, em Lajeado, pode se deparar com um grupo de bravas meninas fardadas treinando pelos campos e concha acústica. Entre a prática da ordem unida, marcha, flexões e muito exercício físico, as quase vinte moças fazem parte da Força Pré Militar – Esquadrão de Líderes com Técnicas Especiais (Fopem Elite).
Muito além do aprendizado sobre a vida militar, as aulas semanais trabalham o civismo, tradições, autocuidado e educação. De acordo com o socorrista e oficial da Fopem Vitor da Silva Rosa, 19, também são acompanhados os boletins escolares das alunas e comportamento. “Acabamos por nos transformar em uma rede de apoio aos alunos e suas famílias em tudo aquilo que envolva a criança e o adolescente”, revela.
A Fopem, que foi criada em Porto Alegre em julho de 2017, estendeu seus trabalhos a Lajeado no mesmo ano e se mantém desde então. O cuidado e zelo com os participantes é uma das principais preocupações. “Há algum tempo apareceu muito na mídia um grupo pré-militar que agia absolutamente fora dos princípios morais, chegando a torturar alunos. Para garantir total transparência, os nossos treinos ocorrem em locais públicos, são abertos aos pais e visitantes e são feitas reuniões periódicas com os responsáveis para ouvir sugestões e críticas”, enfatiza o socorrista.
Espírito de liderança
De acordo com o coordenador do projeto Éder Macedo, os encontros buscam trabalhar o espírito de equipe e liderança de jovens de 9 a 21 anos. “Fazemos com que estes através do estudo, disposição, disciplina, hierarquia, honestidade e lealdade, esses jovens desenvolvam uma sociedade mais responsável, consciente de seus direitos e deveres”, friza.
Formado por profissionais voluntários das áreas de atendimento pré-hospitalar, socorrista, enfermagem, psicologia, bombeiros e militares como um todo, o Fopem realiza os trabalhos semanais apenas cobrando uma taxa de manutenção dos equipamentos e ajuda de custo a instrutores vindos de fora da cidade.
Sempre acompanhadas
WhatsApp Image 2019-09-13 at 4.50.35 PMCom chimarrão e pipoca feitos, a avó Alice e a mãe Geisebel Gräff têm compromisso marcado todos os sábados: acompanhar a filha e neta Eduarda, 13, em seus treinamentos. “Logo que ela ficou sabendo do trabalho da força pré-militar já quis participar. Há um ano treinando percebemos ela muito mais realizada. Não falta uma aula”, afirma a mãe.
Além de ir aos treinamentos aos sábados, Eduarda também realiza exercícios em casa e faz questão de repassá-los aos colegas na escola. “É uma coisa que faz com gosto”, se orgulha a mãe.
Elas dominam
Historicamente os grupos de força militar e pré-militar sempre foram dominados pelo sexo masculino. Lajeado pintou outro cenário: é o sexo feminino que marca a presença mais expressiva no grupo. “Enquanto em Porto Alegre 95% dos participantes são rapazes, em Lajeado é totalmente ao contrário. Foi uma surpresa! É bom ver as mulheres se empoderando de todos os espaços”, acrescenta Vitor.
Para Nelci Maria Soldi, mãe de uma das meninas, esse é um espaço para que os jovens encontrem seus lugares no mundo e aprendam desde cedo que a sociedade funciona com força conjunta. “Eleva-se o nível de consciência perante a sociedade e elas, sozinhas, se direcionam para um caminho do bem”, compartilha. Envolvida há dois anos no projeto, auxilia nas atividades tanto de apoio quanto administrativa da Fopem de Lajeado.
No dia da visita da reportagem ao projeto, em instrução final às meninas o também oficial socorrista Eduardo da Silva Rosa, 19, enfatizou às meninas a importância da honestidade e resiliência. “Dificuldades estarão sempre nos caminhos de vocês e resolver os problemas pelo caminhos certo nem sempre é a maneira mais fácil, mas lembrem-se que tudo aquilo que fizerem de alguma maneira volta a vocês. Então valorizem a educação, a honestidade e resistam! Não ter tudo o que se quer é o que nos impulsiona a caminhar a diante”, finaliza.