Sucumbir por excesso de sucesso

opinião

Ney Lazzari

Ney Lazzari

Reitor da Univates

Assuntos e temas do cotidiano

Sucumbir por excesso de sucesso

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Recentemente o governo brasileiro publicou o Plano Nacional de Turismo 2018-2022, que pretende quase dobrar o número de visitantes estrangeiros no país, passando dos atuais 6,6 milhões para 12 milhões por ano em 2022.
A Espanha prevê que, em 2019, irá receber quase 90 milhões de turistas. Nada mal para um país com 47 milhões de habitantes! Em 2010, eram 52 milhões de visitantes, um crescimento de mais de 70% em 9 anos, com uma média de aumento de 6% ao ano. A Espanha é hoje o segundo país mais visitado do mundo, perdendo apenas para a França e já tendo ultrapassado os Estados Unidos há alguns anos. Quase 3 milhões de pessoas estão empregadas no setor turístico na Espanha, gerando 11% do produto interno bruto (PIB) anual do país.
Nenhum país tem tantos locais definidos como patrimônio da humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco): ao todo são quase 50 na Espanha. A grande maioria das cidades espanholas com população de mais de 100 mil habitantes tem seu charme e encanto, sua cultura, suas tradições, suas festas específicas que, em alguns casos, duram semanas. A Semana Santa em várias cidades da Andaluzia é de fato uma semana inteira de feriados e com grande devoção religiosa. Aliás, quem pensa que no Brasil temos muitos feriados deveria conhecer o calendário espanhol ou da maioria dos países europeus. Feriados são econômica e turisticamente importantes para todos esses países.
Os dois locais mais visitados na Espanha – a Basílica da Sagrada Família, em Barcelona, e a Alhambra, em Granada – recebem anualmente mais de 7 milhões de turistas, ou seja, mais do que o Brasil recebe por ano. Barcelona recebe por dia 10 mil turistas que chegam em luxuosos cruzeiros marítimos pelo Mediterrâneo e outros 75 mil que vêm de trem, ônibus ou pelo aeroporto: o equivalente a toda a população de Lajeado desembarca diariamente na cidade!
A chegada massiva de turistas impacta o dia a dia dos residentes e tem causado aglomerações, problemas de convivência, aumento de preços da alimentação e da moradia.
Os governos têm sido forçados a legislar mais detalhadamente sobre o tema para evitar morrer por excessos. Em Barcelona, foram tomadas diversas medidas, como, por exemplo: proibição de construção de novos hotéis na zona central, cobrança de uma taxa extra diária em residência do tipo Airbnb para quem fica menos tempo, fiscalização intensa em espaços turísticos ilegais, etc. Ainda na cidade, há toda uma discussão sobre cotas do número de turistas com um limite fixo máximo: a partir desse limite, para um novo turista entrar na zona de Barcelona, outro deveria sair. Mas isso ainda é só uma possibilidade.
Outro exemplo de limitação ao turismo na Espanha vem das ilhas do Mediterrâneo (Ibiza, Palma de Mallorca, etc.), no sentido de limitar o consumo de bebida alcoólica em alguns tipos de hotéis com tudo incluso e combater o chamado “turismo de borrachera”, literalmente “turismo de bebedeira”, no qual estão inclusas nas diárias do hotel todas as bebidas que alguém conseguir beber.
A cidade de Málaga, com seus 550 mil habitantes, tem sido um case interessante de reinvenção no tipo de turismo. Nos últimos 10 anos, a cidade inaugurou 19 museus, alguns de altíssimo nível como o Museu Picasso, Museu do Automóvel e da Moda e filiais do Museu Russo, de São Petesburgo, do Museu Pompidou, de Paris, e do Museu Thyssen, de Madrid. Hoje são 39 museus que, somados aos tradicionais encantos da Costa do Sol, atraem quase 2 milhões de turistas por ano, quatro vezes a população total da cidade.
Segurança, cultura, museus, universidade, festivais de cinema e música, seminários e convenções, cervejas artesanais, vinhos, mais de 2.200 restaurantes avaliados no Tripadvisor, tudo isso faz de Málaga uma das cidades mais turísticas da Espanha. Mas, ao mesmo tempo, com esses atrativos bem pensados e planejados, a cidade não padece com o chamado “turismo massivo”.
Há estudos que apontam que um em cada cinco novos postos de trabalho gerados no mundo está ligado aos serviços de viagens e turismo, e há projeções de que no futuro próximo teremos mais 600 milhões de novos turistas. São números impressionantes e que mostram o potencial que países como o Brasil têm. Mas ainda temos muito por fazer, e questões como segurança, logística, língua e infraestrutura deverão ser organizadas de forma pensada e planejada nos próximos anos se quisermos nos candidatar a uma fatia desse mercado.
Países latino-americanos como Peru e Argentina já estão mais bem organizados que o Brasil e sabendo se colocar como grandes polos de atração de novos viajantes da geração millennials, que não vão esperar se aposentar para conhecer o mundo.
Será que, como ocorre em Barcelona, um turista tem o direito de reclamar de excesso de turistas?