Noz-pecã

Rentabilidade atrai novos produtores e investidores

A produtividade diferenciada em relação a culturas tradicionais, o fácil manejo, a crescente demanda interna e eaxterna e o fato de ela ser uma cultura perene – onde não necessita replantio, motivam produtores e até mesmo profissionais liberais a investir no cultivo de nogueiras

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Rentabilidade atrai novos  produtores e investidores

A colheita da noz-pecã no Rio Grande do Sul, maior produtor brasileiro da fruta, iniciou no mês de abril e deve ser a maior de todos os tempos. Em Cachoeira do Sul, onde está localizada a maior área de plantio do país, os pomares da Paralelo 30 Sul, pioneira no cultivo, a expectativa dos administradores é colher numa área de 80 hectares mais de 200 mil quilos de nozes, a maior produtividade dos últimos 10 anoas.
Isso representa uma média de 3 toneladas por hectare, com alguns talhões atingindo até 4 toneladas por hectare. “Nos igualamos a produtividade dos principais países produtores. Utilizamos um maior número de plantas por hectare, genética adaptada a região, um manejo específico de condução e o resultado foi excelente”, destaca o engenheiro agrícola Jorge Porto.
 
Para o médico e sócio proprietário, Eduardo Schuch, esse desempenho é a realização de um objetivo traçado. “É um sonho que se transformou em um plano de metas e o desafio de ter um pomar no Brasil com produtividade mundial. Hoje podemos dizer que foi atingido”, comemora.
 
Segundo Porto, o grupo de seis sócios, formado por quatro médicos, um jornalista e um engenheiro eletrônico, plantou a primeira semente há 10 anos. Na época, atentos a esta crescente demanda pelo fruto, tanto no mercado interno como internacional, criaram a Paralelo 30 Sul.
 
Um projeto audacioso que nasceu com o objetivo de atuar em toda cadeia produtiva, desde a produção até o beneficiamento. Também presta consultoria para implantação de pomares em todo país e América Latina, além da venda de mudas. O viveiro tem capacidade produtiva de 60 mil mudas enxertadas por ano.
 
O primeiro passo foi buscar conhecimento e tecnologia para construir um pomar de classe mundial nas condições de clima e solo do RS. Já são 200 hectares, plantados de forma escalonada entre 2009 e 2017. A parte mais consolidada do pomar é de 80 hectares onde há árvores de 9 a 10 anos.
 
O restante começa a frutificar a partir de 2020, e até 2024. Quando todo área estiver em plena produção, o volume atingido será de 600 toneladas por ano.
 

Produção é diferencial

Os produtores convencionais de soja ou milho, por exemplo, nem sempre conseguem manter uma média de rentabilidade num período de 10 anos, devido aos fatores de mercado ou climáticos. Já na pecanicultura é possível consorciar várias culturas e incrementar em muito o lucro por hectare.
 
De acordo com Porto, a rentabilidade da pecuária, por exemplo, onde 250 a 300 quilos de boi por hectare equivalem de R$ 1,3 mil a R$ 1,5 mil por hectare, gera um lucro líquido de aproximadamente R$ 600 a R$ 700 por hectare.
 
Na soja, o lucro líquido não passa de R$ 1 mil por hectare/ano na média, devido ao custo de produção. Com a noz-pecã a partir de 8 ou 9 anos é possível ter rentabilidade anual média acima de R$ 15 mil/ha por ano.
 
Conforme o engenheiro agrícola é uma projeção conservadora, porque se for analisado um pomar com produção de 2,5 toneladas, comercializadas a R$ 10 o quilo, são R$ 25 mil/ha. “Abatendo todo investimento com manejo, colheita, deve sobrar entre R$ 15 a R$ 18 mil líquidos por hectare/ano”, garante.
 

O tabaco deu  lugar às nogueiras

Elton Danieli, 54, de Sério investiu na cultura faz 12 anos. São 140 árvores espalhadas em um hectare. Com o fim do cultivo de milho e tabaco, a nogueira surgiu como alternativa para evitar a área ociosa.
 
Entre as dificuldades destaca o manejo e a baixa produtividade. “No último ano colhi apenas 50 quilos. Busquei acompanhamento técnico para ver a origem do problema”, relata.
 
Uma das saídas é melhorar a adubação e corrigir o solo com calcário. A expectativa para este ano é de colher ao menos 100 quilos. “No futuro a expectativa é de atingir uma produção média 10 mil quilos ao ano”, projeta.
 
A valorização do fruto traz ânimo. Danieli estima receber cerca de R$ 12 por quilo, com casca. “Se for descascada chega a valer três vezes mais”, diz.
 
Atualmente a principal renda da família é oriunda do beneficiamento de madeira. Com serraria na propriedade, comercializam paletes para uma cooperativa de Carlos Barbosa.
 

Tecnologia facilita trabalho

José Carlos Gonçalves de Mattos, de Cruzeiro do Sul, plantou as primeiras mudas faz mais de duas décadas. Foram 200 plantas em sua propriedade e mais de 12 mil na área de um vizinho. “Muitas morreram por ataque de formigas e falta de cuidado. Hoje temos 3 mil árvores em ciclo produtivo e a estimativa é de colher 10 toneladas”, conta.
 
Ao lado do filho Leonardo, 20, montou uma agroindústria para beneficiar o fruto. O quilo é vendido por R$ 45. “O valor é quatro vezes maior do que o in natura”, compara.
 
Para agilizar a colheita, foi comprado um vibrador de tronco, um trator e uma máquina para quebra as nozes. “Descasca até 90 quilos por hora. A tecnologia facilita o trabalho e garante a sucessão”, afirma.
 
Outra meta é recuperar aos poucos o pomar abandonado para atender a demanda constante pela fruta. “O rendimento nem se compara com outras culturas. O manejo é simples, mas é preciso buscar conhecimento”, ensina.
Além das nogueiras, a família aposta na criação de gado de corte, criado em meio ao pomar. Ajuda a manter o pomar limpo, livre de ervas daninhas e ainda colabora com o acúmulo de matéria orgânica que auxilia na adubação das plantas.
 

agronoticias_07Área avança  pela demanda

Conforme o engenheiro agrônomo da Emater Regional de Lajeado, Derli Paulo Bonine, na região são cultivados 700 hectares. A área avança pelo preço da fruta e a demanda ser maior do que a oferta.
O custo para implantar um hectare chega a R$ 7 mil e após o quarto ano são colhidas as primeiras frutas. O pomar atinge um nível comercial aos sete. Para este ciclo, a média a ser colhida por hectare deve chegar a 2 mil quilos, rendimento considerado superior e com nozes de excelente qualidade. “O preço está em R$ 10”, observa. De acordo com a Emater-RS, são mais de 4 mil hectares cultivados e 1 mil famílias envolvidas.
 
 
 
 

Produtiva além dos 100 anos

Conforme o pesquisador Carlos Martins, da Embrapa Clima Temperado, a falta de experiência e de informação ainda são obstáculos para os produtores que pretendem fazer um pomar comercial em sua propriedade.
 
A pecaneira é uma planta perene, que pode ser explorada economicamente por mais de 100 anos, por isso as escolhas de local e cultivares são essenciais, ensina. A seguir, uma pesquisa desenvolvida evidencia os mitos e verdades da cultura (quadro ao lado).
 
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