Editorial

Dor sem fim

Enquanto o país tenta entender os motivos para tamanha crueldade dos atiradores. A invasão da escola Professor Raul Brasil deixou seis mortos. A dor se sobrepõe a qualquer razão. O massacre em Suzano, no estado de São Paulo, repete a…

Enquanto o país tenta entender os motivos para tamanha crueldade dos atiradores. A invasão da escola Professor Raul Brasil deixou seis mortos. A dor se sobrepõe a qualquer razão. O massacre em Suzano, no estado de São Paulo, repete a tragédia de Realengo, em abril de 2011.
 
Guilherme Taucci e Luiz Henrique de Castro protagonizaram uma crueldade sem tamanho. Entre a suspeita de bullying, da interferência de jogos eletrônicos e a desestrutura familiar, pouco se fala dos sinais que os assassinos suicidas deixaram para trás. Nas redes sociais, fotos com expressões sérias e gestos violentos.
 
O fato é que as pessoas estão cada vez mais presas em si mesmo. Os indivíduos criam oceanos à volta e a tentativa de aproximação é repelida. Quem está perto não consegue romper a barreira. Os pais, os avós, irmãos se tornam desconhecidos dentro da própria casa.
 
Com Guilherme aconteceu algo parecido. Criado pelo avô e pela avó, ele passava mais tempo no computador do que com os familiares. No ambiente virtual, construiu uma vida fake. Alimentava sentimentos ruins e alucinava violência. Como resultado, o desfecho mais trágico e cruel. Algo que, afirmam, nenhum familiar imaginava.
 
Quantos não repetem esse comportamento? Quantos pais ao chegar do trabalho, cansados da rotina, não preferem deixar os filhos em frente aos jogos e às redes sociais do que conversar e sentir como eles estão? Essa desconexão com a realidade impede o ato de estender a mão. Afinal, não se percebe que há algo errado. Neste distanciamento, surge a raiva, o ódio e a desesperança. Ingredientes base para um surto e às psicopatias.
 
Nas veredas da mente humana, cada vez mais pessoas têm dificuldade em conviver com as decepções da vida. A depressão se tornou uma epidemia. Estimativa da Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que a doença atinge mais de 350 milhões de pessoas.
 
Os sintomas são diferentes em cada paciente. Para evitar essas tragédias familiares, é preciso falar sobre depressão, conversar, se interessar pelo outro. Junto com esse comportamento individual, se faz necessário manter a qualificação das redes de atendimento.
 
Em cima de toda essa conjectura, também há uma crise moral sobre o país. A cultura da arma e da violência está no dia a dia. As pessoas estão mais intolerantes e qualquer desavença pode se tornar uma agressão. Muito alimentado pelas autoridades políticas. Esse massacre é mais um alerta sobre o tipo de valor que a sociedade nutre dos dias que se seguem.