Energia sustentável

Tendência avança na região

Organizações, produtores e empresas investem em painéis para gerar eletricidade pela luz solar. Iniciativas que buscam a autonomia energética e menor impacto à natureza ganham espaço no Vale do Taquari. O RS é o segundo estado em potencial instalado. Em Sério, produtor aplicou R$ 260 mil em energia solar, para tornar aviário autossuficiente. Com a economia na conta de luz, Vilson Sartori acredita que o investimento retorne à família em até seis anos. Em Teutônia, cooperativa economizou R$ 12,5 mil em quatro meses de funcionamento de usina fotovoltaica

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Tendência avança na região
Vale do Taquari

Em busca da autossuficiência energética, o agricultor Vilson Sartori apostou na geração própria e investiu alto. Desembolsou R$ 260 mil na instalação de painéis de energia solar na propriedade, na localidade de Paredão, Sério. A iniciativa é uma forma de reduzir os cerca de R$ 4 mil mensais com a conta de luz.

Foram instaladas 232 placas e a estimativa é produzir toda a energia consumida pela propriedade, cerca de 8,5 mil kWh por mês. Para o setor agrícola regional, é um dos maiores investimentos. Em outros municípios do Vale, a maioria é de projetos de menor porte, na faixa de R$ 15 mil a R$ 30 mil. “A previsão é começar a pagar apenas a taxa mensal da concessionária”, projeta Sartori. Ele calcula que em seis anos o valor investido será recompensado.

A maior parte do consumo vem da avicultura, ramo para o qual Sartori migrou faz cerca de três anos. Duas unidades do modelo dark alojam 70 mil aves. Outro benefício trazido é ambiental. A empresa responsável pela instalação estima que esse projeto reduza 27 toneladas/ano de gás carbônico.

Em quatro meses de funcionamento, usina instalada na Cooperagri, de Teutônia, gerou economia de R$ 12,5 mil na conta de luz da instituição

Em quatro meses de funcionamento, usina instalada na Cooperagri, de Teutônia, gerou economia de R$ 12,5 mil na conta de luz da instituição

Cooperativa já vê resultados

Em Teutônia, a Cooperagri já começa a ver os resultados econômicos da geração de energia solar. Em quatro meses de funcionamento, a usina fotovoltaica já trouxe uma economia de R$ 12,5 mil.

A unidade foi inaugurada em junho, com o objetivo de produzir metade da energia consumida. Em 2017, o gasto total foi de R$ 160 mil.

O presidente da cooperativa, Aloísio Mallmann, explica que nos primeiros meses, em função de muitos dias nublados e de chuva, a geração ficou abaixo do esperado. Em outubro, a geração superou a estimativa, dando conta de 66% do consumo. A conta de luz teve uma redução de R$ 5,8 mil.

Aloísio Mallmann

Mallmann instalou também 18 painéis na sua residência, para abastecer a casa e a propriedade. Satisfeito, ele afirma que o potencial é até maior que o necessário e está sobrando energia. “Quem quiser instalar não deve pensar duas vezes. Mesmo que seja necessário um financiamento, é viável”, afirma.

A usina resulta de projeto desenvolvido com apoio da Emater. No valor de R$ 500 mil, o complexo foi viabilizado por meio do Fundo Estadual de Apoio ao Desenvolvimento dos Pequenos Estabelecimentos Rurais (Feaper), da Secretaria de Desenvolvimento Rural, Pesca e Cooperativismo (SDR). A cooperativa financia R$ 100 mil em cinco anos e o restante é a fundo perdido.

Eliminando custos

Para reduzir custos com energia, a Cooperagri avançou também na redução do consumo. No início deste ano, a cooperativa contratou uma consultoria para fazer um diagnóstico e eliminar custos internos.

A cooperativa vinha pagando cerca de R$ 2 mil por mês de multa, por picos de energia. Em outubro, esse custo foi zerado. “Os airadores que secam o milho eram ligados todos juntos. Hoje instalamos um aparelho que faz eles funcionarem alternadamente”, exemplifica Mallmann.

RS é o segundo no país

No Brasil, a matriz energética é baseada em sua maioria em fontes hídricas, que dependem de regimes de chuvas favoráveis para manter o fornecimento de energia. Além disso, em tempos de escassez de energia, o sistema utiliza a energia de usinas termelétricas ou nucleares que, além de poluentes, produzem energia a um custo mais elevado.

Nesse cenário, as fontes de energia renováveis se apresentam como opção crescente no mercado. Além de terem matéria-prima inesgotável, modelos como o de energia solar e eólica geram menor impacto ambiental.

O sistema fotovoltaico traz ainda a possibilidade tanto de grandes sistemas, com produção em larga escala, até pequenas instalações em telhados de casas e comércios.

No RS, a energia gerada a partir da luz solar avança a passos largos. De acordo com a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), o estado é o segundo do país em potência instalada, com 34,5 mil Kw. Em número de unidades, o RS ocupa o terceiro lugar. Até abril, eram 3,172 unidades. Minas Gerais lidera os dois rankings.

Julio Salacker

“É preciso rever o modelo”

Para o diretor de Geração de Energia da Certel, Júlio Salecker, não restam dúvidas: a energia solar é a de maior potencial no mundo. “No Brasil estamos usando menos de 0,1% do que o sol nos entrega”, estima.

Salecker é defensor da expansão da energia solar, porém, tem críticas ao modelo adotado no país. Ele vê dois grandes problemas no sistema. O primeiro é o alto custo de implantação. O equipamento produzido no Brasil não consegue competir com os importados da China, que, ainda assim, chegam ao consumidor final com valor muito alto.

Segundo Salecker, o custo é quase o mesmo do modelo hidrelétrico. Ele estima que, para o mercado de energia solar se concretizar sem subsídios, esse custo deveria ser reduzido a um terço.

Outro ponto é o modelo de tarifação, que ele considera injusto e causador de um desequilíbrio financeiro. “Este modelo canibaliza os outros consumidores. Quem entra com a solar ganha desconto na tarifa plena. A distribuidora tem prejuízo por um período e quando vem o reajuste todo mundo paga”, afirma.

O diretor aponta outras fontes de energia renovável adequadas às características da região. Por ter grande produção agropecuária e forte indústria alimentícia, o Vale do Taquari tem grande potencial para gerar energia a partir de resíduos orgânicos.

“A região tem que olhar para o seu potencial de gerar energia a partir do lixo. Resolve duas questões: produz energia e soluciona os dejetos da pecuária”, afirma

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Crescimento no país

Nos primeiros seis meses deste ano, o Brasil, de acordo com a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), chegou a 260 megawatts (MW) médios de potência de energia solar fotovoltaica gerada pela instalação de sistemas de microgeração e minigeração.

Esse número é 88 vezes maior do que aquele registrado no primeiro semestre de 2017. Em setembro de 2018, o Brasil atingiu a marca de 350 megawatts (MW) em geração solar distribuída.

Nos últimos dez anos, a instalação da energia solar fotovoltaica ficou entre 60% e 80% mais barata, ainda de acordo com a Absolar. Nesse mesmo período, o custo da energia elétrica oferecida pelas concessionárias disparou.

De acordo com a associação, um público que adere cada vez mais é formado pelos produtores rurais, que apostam na energia solar em suas propriedades como forma de diminuir custos e aumentar a produtividade.

“O uso crescente dessa matriz energética renovável, sustentável e limpa, substituindo fontes de energia obtida com a queima de combustíveis fósseis, é positivo para o meio ambiente e para a saúde pública”, destaca Rodrigo Lopes Sauaia, presidente da Absolar.

Matheus Chaparini: matheus@jornalahora.inf.br