opinião

Raquel Winter

Raquel Winter

Professora e consultora executiva

A primeira crônica do sonho

Por

Então finalmente chegou o dia. Desde criança eu gostava de escrever e em minhas brincadeiras costumava imaginar que eu estava escrevendo sentada em uma sacada, com janelas verdes, cheia de flores coloridas, observando o vai-vem de pessoas desconhecidas e para as quais, ainda assim, eu sorria e acenava.
Foi então que em um dia da minha vida adulta, quando eu e minhas filhas assistíamos ao filme Cartas para Julieta, em uma sessão de cinema no sofá de casa, que descobri onde estava de verdade a sacada com a minha janela dos sonhos de infância. Foi de arrepiar.
Bem, esta crônica é a primeira que escrevo sentada no cenário perfeito, em meio a um jardim privado, no centro histórico de Verona, na Itália. É muito melhor do que eu pude sonhar, porque eu não conseguiria colocar em meus sonhos o cheiro das flores que me cercam agora, tampouco a sonoridade da língua italiana misturada à urbanidade que inclui carros e lambretas, arrulhar de pombos, copos brindando e músicas que variam de acordo com o artista que nos presenteia com seu talento em troca da nossa espontânea contribuição.
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Sim seria perfeito se não fosse a cotação do euro para abalar em parte toda esta alegria! Mas vá bene, dá-se um jeito. Agora, o que vale mesmo é a inspiração e para começar não vou falar de Verona, mas sim de Roma e do que pude ver por lá. Pois é, dei uma passadinha e vi de tudo um pouco. Os famosos e extraordinários pontos turísticos e, é claro, os imperdíveis museus do Vaticano. Algumas igrejas e monumentos.
Mas sabe do que mais gostei em Roma? Do trânsito. Sim, não me enganei. Adorei o funcionamento perfeito e não caótico como pintam por aí, daquele trânsito magnífico. Mas posso explicar por quê. Transitei por ruas milenares, estreitas e repletas de história, pedestres, carros, motocicletas, ônibus, bicicletas, charretes e uma outra condução parecida com um triciclo elétrico, que não sei o nome, mas que apelidei de tuctuc. Vi tudo isso compartilhar o mesmo trajeto em perfeito sincronismo. Sério! Como é possível?
Tudo vai e vem em perfeita e insana harmonia. Ninguém passa por cima de ninguém. Ninguém bate em ninguém. Algumas buzinadinhas aparecem, mas, é claro, tudo na mais santa paz romana. Me impressionou ver que cada centímetro é aproveitado. Um passinho à frente, um pouquinho para o lado e passamos! Sai, sai que lá vem o tuctuc.
Olha só, a charrete também buzina. Incrível esse trabalho em equipe realizado por tantos que nunca se viram antes. E em algumas horas circulando por lá aprendi duas coisas essenciais: dizer “prego” antes de iniciar qualquer fala e andar para frente, me encaixando no fluxo e apreciando o destino em seu trajeto.