Coragem para mostrar a  violência cometida pelo pai

Vale do Taquari

Coragem para mostrar a violência cometida pelo pai

Abusada durante a infância e a adolescência, Elizabeth Nonnenmacher denunciou o caso na internet e se tornou símbolo da luta contra a violência sexual na infância. A ativista é filha do promotor de Justiça Rogério Nonnenmacher, preso pela primeira vez em 2004 e condenado a 14 anos de prisão após longa disputa judicial.

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Coragem para mostrar a  violência cometida pelo pai
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Parabéns pela coragem que eu não tive…” A frase escrita por uma visitante do website R-evolução Anti-pedofílicos (www.r-eap.org) mostra a relevância do ativismo praticado por Elizabeth
A página foi criada em 2003, em meio às tentativas de prender o pai. Na época, Elizabeth vivia na Austrália e participava de grupos de convivência que a ajudaram a denunciar os abusos ocorridos na infância.
Cansada de aguardar uma atitude da Justiça, passou a escrever sua história, e logo foi seguida por pessoas que passaram por situações iguais, chamadas por ela de sobreviventes. Nos comentários anônimos escritos em português e inglês, é fácil perceber a semelhança entre os diferentes casos ocorridos redor do mundo.
Estudos mostram que 30% das mulheres foram abusadas sexualmente durante a infância. No Brasil, a cada oito minutos, uma criança é vítima de violência sexual. Como a maior parte das vítimas não chega a fazer denúncia, a ONU estima que metade das crianças do mundo estão sujeitas a abusos.
Elisabeth levou muitos anos para conseguir denunciar a violência que sofreu do início da infância até a adolescência. Aos 43 anos, ela percebeu a necessidade de tomar alguma atitude para evitar que outras meninas passassem pelo mesmo sofrimento. Desde então, participa de ações, palestras e grupos de apoio.

Histórico de abusos

Rogério Nonnenmacher tinha 71 anos quando foi preso pela primeira vez, em 2004. Natural do bairro São Bento, Lajeado, é o mais velho entre nove irmãos. Trabalhou como radialista e professor antes de se tornar advogado.
A partir da década de 60, passou a atuar na política, tendo se candidatado a deputado federal, estadual e a prefeito de Estrela e Lajeado. As conexões políticas lhe renderam o cargo de diretor do Departamento de Censura do RS da Corag. Em 1976 tornou-se promotor, cargo no qual se aposentou no fim da década de 90.
Conforme Elizabeth, os ataques de pedofilia começaram no fim dos anos 1950 e perduraram por mais de 50 anos. Segundo ela, os abusos contra nove meninas foram provados, mas existe a suspeita de pelo menos outras 16 crianças só entre os familiares.
A prisão do promotor ocorreu devido à violência sexual cometida contra outras duas filhas, frutos de relações extraconjugais. Em um dos casos, os abusos começaram em 1991 e perduraram até 2003. No outro, os crimes ocorreram entre 2003 e 2004.
Nonnenmacher foi sentenciado em primeira instância a dez anos e 15 dias de detenção, em processo com a participação de 36 testemunhas. Ele recorreu da condenação, que foi confirmada pela 8ª Câmara Criminal do TJ-RS. A pena foi ampliada para 14 anos e 22 dias.

“Começou quando eu era uma criança de jardim da infância, mas denunciei aos 43 anos.”

A Hora – Quando você decidiu enfrentar a situação de abusos que sofreu e se tornar ativista antipedofilia?
Elizabeth Nonnenmacher – Faz mais de 20 anos, antes de eu decidir abrir o meu website, conheci a organização de sobreviventes adultos de abuso sexual na infância na Austrália e participava de grupos de convivência. Muitas mulheres idosas me diziam que se soubessem que os pedófilos nas suas famílias teriam abusado das filhas, netas, sobrinhas, teriam tomado providências antes. As pessoas de idade avançada ficam fragilizadas por problemas de saúde e toda aquele trauma de infância vem à tona. Foi então que percebi a necessidade de fazer alguma coisa para parar o abusador enquanto ele ainda estiver vivo e enquanto ainda tenho força para isso. Na época, eu já tinha feito mais de dez anos de terapia e, se não fizesse alguma coisa na minha família, ninguém faria.

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Quando começaram os abusos e quanto tempo levou até você conseguir denunciar?
Elizabeth – Começou quando eu era uma criança de jardim da infância, mas denunciei somente aos 43 anos. O meu caso já havia prescrito, mas como a série de abusos continuou a condenação ocorreu por causa das últimas vítimas. Ocorriam tanto na família quanto fora. Foi uma grande batalha judicial e sofri muitos ataques. Tive familiares e outras pessoas que foram ao jornal criticar o trabalho da polícia. Ele ajudava todo mundo financeiramente e livrava dos problemas jurídicos. Decidi colocar a história no site porque o Judiciário não tomava providências. Precisava mostrar o quanto a Justiça é corrupta.

Por que, mesmo comprovados os crimes, algumas pessoas continuam a defender o abusador?
Elizabeth – Acredito que falta consciência de cada indivíduo que se nega a querer olhar o problema de frente. Muitas pessoas desconhecem o sofrimento das vítimas e não têm ideia do período que pode perdurar os abusos. Acham que ele pode parar, algo que não é verdade. Não é apenas desejo sexual e sim de controlar o ser humano mais frágil. É uma psicopatia, uma necessidade de controlar os outros e ter domínio sobre as outras pessoas, é algo sádico. Eu fiz questão de mostrar que meu pai vinha abusando de pessoas há mais de 50 anos. Esses abusadores não atacam apenas uma vítima, e sim qualquer criança que estiver no caminho deles sem adultos para proteger. É uma coisa sem cura e que deveria resultar em prisão perpétua.

É possível prevenir a ocorrência dos abusos?
Elizabeth – É muito difícil e só é possível evitar que a segunda criança sofra. A primeira nunca se sabe, pois é impossível saber quem são os pedofílicos. Eles não têm características comuns, sejam físicas, profissionais, religiosas ou de idade. Pode ser qualquer um. Pode ser o padre, o professor, o juiz ou o promotor de Justiça, como foi o meu caso. Só se sabe no momento que uma criança ou uma vítima mais adulta conta. No momento que se sabe da primeira pessoa, os adultos precisam tomar providências para evitar a segunda.

Existem campanhas que visam ensinar as crianças a se proteger de ataques. Elas são efetivas?
Elizabeth – Não se pode jogar essa responsabilidade para as crianças. Existe essa paranoia de que precisamos mostrar para elas onde não devem ser tocadas, que não pode dar beijo e abraço. Pelo amor de Deus, as pessoas estão tão isoladas umas das outras e vamos ensinar as crianças a não confiar umas nas outras? Elas vão crescer desconfiadas de todo mundo e não vão saber amar. Não vão se permitir amar. Por isso é importante compartilhar o que dá e o que não dá certo.

Por que o abuso sexual continua sendo um tabu mesmo nas instituições e órgãos de proteção às crianças?
Elizabeth – As pessoas têm medo de incomodar pessoas de influência e de enfrentar os poderosos ou qualquer pessoa que possa lhe confrontar ou causar dano, seja na vida pessoal ou profissional. Estive com várias conselheiras tutelares em São Paulo e elas dizem que as autoridades da Justiça são as mais difíceis porque não acreditam nas crianças. Hoje temos um problema muito sério que é a criminalização da alienação parental. Então estão devolvendo as crianças para a convivência do abusador. Existem muitas mães querendo tomar atitude e a própria Justiça não permite.

No ano passado, ficou famoso um caso no qual um promotor de Porto Alegre humilhou uma adolescente vítima de abuso sexual durante uma audiência. Por que isso acontece?
Elizabeth – Tem muito a ver com a forma como a Justiça está estabelecida. Para se tornar promotor no Brasil, basta passar num concurso. Em outros países, não pode se tornar juiz ou promotor antes dos 40 ou 50 anos. Ou seja, é preciso experiência profissional e de vida antes de assumir as posições. Eu acompanhei esse caso e esse promotor se mostrou preconceituoso e despreparado. Ele nunca conheceu o que tememos e tentamos esconder os abusos. É mais difícil denunciar do que esconder e muitas vezes a gente acaba negando o que denunciou. Não pode tratar a vítima dessa forma e sim investigar por que ela mudou de versão. Essa pessoa sofre pressão da família, de pessoas interessadas da sociedade. Eu fui alvo de ataques e ofensas e se um adulto sofre com isso imagina uma criança que não tem condições emocionais e físicas para se defender.