Verissimo reencontra pastel de estrada

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Verissimo reencontra pastel de estrada

Escritor abriu festival do livro Gustavo Adolfo com palestra, autógrafos, música e nostalgia

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Britagem Cascalheira | VERTICAL

Lajeado – Depois da crônica Pastel de Beira de Estrada, publicada em 1991 no Jornal Zero Hora, o escritor Luis Fernando Verissimo reencontra o pastel que o inspirou naquela tarde, quando iam de Porto Alegre a Passo Fundo.

Anderson LopesO pastel degustado há 24 anos no shopping da cidade, com a esposa Lucia e o dramaturgo Augusto Boal, carrega hoje o nome dele. O momento nostalgia relembrou o escritor dos motivos pelos quais descreveu o local e o pastel, que estava ótimo e que estariam todos perdidos por isso.

Dito na crônica como “um dos 17 prazeres universais”, o pastel de beira de estrada foi entregue quentinho ao escritor na noite de ontem, para que degustasse o sabor que lhe rendeu a crônica. Com o jeito simples e modesto, de fala mansa, mas direcionada, o escritor, cartunista, tradutor, roteirista de TV, autor de teatro e ainda músico, Luis Fernando Verissimo sentenciou: continua bom, manteve o nível.

Para o empresário Carlos Raul Lopes Abela, o momento foi de surpresa. Ele lembra de quando morava em Santa Cruz do Sul e de como recebeu a notícia da crônica, há mais de 20 anos. “Sabe aqueles dias que tu acorda e não quer falar com ninguém? Então, eu fui surpreendido”, conta.

Admite que, quando ficou sabendo que saiu no jornal algo sobre a pastelaria, chegou a pensar que se tratava de algo ruim. “Já no dia seguinte veio gente de Teutônia, Paverama, Estrela, e diversas cidades da região e do estado atrás do pastel.”

A crônica ganhou espaço na pastelaria do Shopping, num quadro grande. Se antes havia dez tipos de pastéis, hoje o número dobrou. Afirma que há pastel de filé, camarão, coração, bacalhau, mas entre todos o mais vendido é o Pastel Verissimo. Tradicional, de carne moída, simples, como o escritor.

Conquistador de leitores

Antes de o evento oficial começar, um bate-papo informal com os alunos do Colégio Gustavo Adolfo revelou o interesse dos jovens pelas crônicas e contos. Logo depois, se encaminharam para o auditório do Centro Comunitário Evangélico – local em que é realizada a 13ª edição do Festival do Livro. Lá, Verissimo demonstrou sua habilidades com saxofone, ao tocar com a banda Jazz 6, numa noite fria, mas recheada de cultura.

A sessão de autógrafos foi entre os cerca de 20 mil livros expostos. A Feira do Livro se estende até a próxima quarta-feira e tem na programação conjuntos instrumentais, corais, apresentações de dança e teatro e horas do conto.

Bate-papo com Veríssimo

Filho do romancista Erico Verissimo, Luis Fernando, com quase oito décadas de vida, descreve o momento atual do Brasil, tanto no incentivo a novos leitores e escritores, quanto na contradição exposta nas redes sociais.

Jornal A Hora – Temos pouca cultura da leitura no nosso país. Na sua opinião, de que maneira podemos mudar esse cenário?

Luis Fernando Verissimo – Esse problema de não existir um mercado editorial, de não existir leitores, tem a ver com a situação econômica do país. Falta de dinheiro. As pessoas estão mais preocupadas em ganhar a vida, sobreviver. Os jovens têm outros meios, mais atraentes do que o livro. Eu admiro muito o trabalho dos professores. Tem escolas que as professoras estão encenando textos e convidando atores para dar palestras, para criar o interesse pelo livro. Aos poucos isso está melhorando.

Muitas pessoas reclamam dos preços dos livros. Para o senhor, isso interfere de que maneira no pouco hábito da leitura? Se é que interfere?

Verissimo – Tudo requer dinheiro, tanto para livro, CD, DVD, ir a concertos, tudo se limita com dinheiro. E isso se estende a qualquer tipo de atividade cultural. E tudo é decorrente da situação econômica.

Qual o papel da família na criação do hábito de ler? E da escola?

Verissimo – A criança que tem os pais leitores já está no meio do caminho. Tendo pai e mãe que gostam de ler, já estão influenciando, mesmo que indiretamente. Eu, por exemplo, pelo fato de ser filho de escritor romancista, coisa que me interessou por livros desde garoto. Quem tem pai escritor está meio que condicionado a ser um leitor e escritor.

Por que o Brasil não é um país de leitores?

Verissimo – Não se pode esperar isso de um país que tem tantas carências. A população do Brasil tem outras prioridades, como a sobrevivência. A cultura e a leitura passam a ser quase que um luxo.

Como se observa as opiniões expressas nas redes sociais?

Verissimo – Isso é uma contradição, pois, ao mesmo tempo que aumenta a comunicação, acaba tirando o que as pessoas têm de pior, que é o anonimato, o insulto, o ataque, a coisa agressiva. Principalmente a nova direita brasileira, reacionária. O lado bom é de aumentar a comunicação com as pessoas. Por outro lado, tem essa coisa obscura. Usar para espalhar ideias reacionárias.

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